
GAGO APAIXONADO
Devo, não
nego, uma crônica dedicada a Noel Rosa. Sua presença constante no
cenário da música popular reafirma uma condição ímpar. A trajetória de
vida não fica atrás: produziu mais de duas centenas de canções num
período de sete anos, morrendo antes de completar 27 (1910-1937) - um
verdadeiro vulcão. Chico Buarque reconhece que vem de sua lavra uma
primeira formatação da canção popular no Brasil.
No entanto,
pensar em Noel como patriarca fundador é um tanto estranho porque ele
constrói um personagem tão malemolente, irônico, gozador, anárquico -
dizem que gostava de escrever versões pornográficas do Hino Nacional -
que espécie de pai seria?
É claro que
no Brasil a figura do pai anárquico ocupa um lugar importante no
imaginário**. A falta de coesão social resultou num grande vazio de
força simbólica unificadora - fomos Colônia por vários séculos, e
reunimos num mesmo território gente de culturas muito distintas. Xangô e
Descartes nem sempre se entendem! Então, muitas vezes a liderança
precisou ser exercida ao contrário, ao arrepio da sisudez e dos 'bons
costumes'. No contrapelo dos limites.
É o que
anuncia há mais de trezentos anos a figura de Gregório de Mattos, em sua
recusa de ser porta-voz da oficialidade cultural, religiosa ou política.
Traços semelhantes reaparecem em personagens e situações diversas a
exemplo de Vadinho de Dona Flor, Macunaíma (herói sem caráter), ou na
centralidade do carnaval (festa de alegria e de anarquia), e ainda na
figura do malandro.
Ora, Noel
está muito ligado ao mundo da boemia e da malandragem carioca do início
do século XX. E exerceu sim, diversas vezes, o papel de reverberação de
contra-discursos. Um dos mais densos e candentes é o que segue:
Quanto a você
/ Da aristocracia / Que tem dinheiro / Mas não compra alegria
Há de viver eternamente / Sendo escravo dessa gente / Que cultiva
hipocrisia
Gosto de
entender a canção 'Gago Apaixonado', uma de suas criações mais
interessantes, como parte desse cenário. Imperdível conferir a gravação
original, feita em 1931. Quase 80 anos depois e nada chega perto do
frescor de sua originalidade - é samba, chorinho, modinha lírica, e não
dispensa trejeitos de New Orleans, tudo no melhor estilo. Mas,
sobretudo, lá está a voz e a presença irradiante de Noel.
A
inteligência composicional da canção coloca em primeiro plano a situação
hilária de um gago, extravasando sua decepção amorosa***, e olha que os
gagos geralmente cantam sem tropeçar. Mas há outras leituras relevantes.
Trata-se de
um gago paradigmático. Quem é que alguma vez não se engasgou com a
paixão? A paixão faz engasgar, gaguejar, praguejar - e eis que o nosso
personagem acaba afirmando que sua 'amada' vai ficar corcunda. Nesse
sentido, rir do gago é rir da própria condição humana.
Um detalhe
importante: a amada não recebe nome. A canção mudaria de perfil se fosse
dirigida a uma mulher específica (Rosa, Marina, Rita...) como é tão
comum no repertório romântico. Noel deixa o objeto da paixão no seu
nível mínimo de personalização: mu-mu-mulher. Prevalece o lado
passional, do qual a gagueira faz parte.
A série de
rimas que acompanha esse processo é bastante sugestiva: estrago / gago /
afago. A palavra 'estrago' é um capítulo em si mesmo****. O gago fica
espremido entre o estrago e o afago. Não espanta que sua voz falhe.
Ouve-se na gravação que Noel dá uma entonação toda especial à palavra
afago, quase um arrepio, fazendo ainda por cima uma pequena cesura.
Outras séries
de sonoridades significativas ampliam o processo. Na série 'crueldade/da
saudade/que maldade', a repetição gaguejante acentua o ridículo e
quase intoxica. Em outra direção surgem sonoridades mais pesadas, quase
grosseiras (o estrago está feito): 'moribundo/vagabundo' até 'tu
vais ficar corcunda'. Tudo isso torna a palavra 'afago' a única
recordação doce (embora chorosa) de todo o episódio.
A segunda
direção de leitura pode ser vislumbrada a partir de um insight
inesperado. As situações constrangedoras para o gago vão se acumulando.
A mais pungente é, sem dúvida alguma, o gesto final, onde o pronome 'tu'
dá origem a uma bravata melódica: tu, tu, tu ,tu, tu ,tu ,tu ,tu, tu
tens....

Qual não é a
surpresa quando nos damos conta que esse gesto finalizante evoca uma
cadenza de ária de ópera*****. Ele navega pelos extremos da nota da
Dominante (ré4 - ré3), e depois dos cromatismos de praxe, encerra com
uma fórmula consagrada para arrancar aplausos das platéias:
fi-fi-fin-gi-do.
Uma ária de
bravura. O gago está bravo que nem só. Mas, ao mesmo tempo, é um gesto
de samba. Sua rítmica chega a lembrar o samba de breque. Estamos em
plena interface antropofágica?
Rindo do
gago, estamos rindo também do cenário lingüístico onde ele trafega - um
romantismo de gosto duvidoso e soluções piegas. Vale lembrar que o
personagem de 'Conversa de botequim' não precisa de nenhuma moldura
parnasiana. Fala em 'manteiga à beça', em 'média requentada', ou seja, é
a linguagem do cotidiano, da vida - aliás, uma bandeira de Noel.
Mas o gago
deriva parte de seu humor justamente desse absurdo. Alguém em sua
condição, ainda ter que lidar com 'tu tens', 'teu coração me
entregaste', 'depois de mim tu tomaste' - é demais para um pobre mortal.
O gago acaba ridicularizando essa representação lírica que oblitera a
realidade social em favor de 'uma hipocrisia que escraviza'. Que bálsamo
ouvir o gago estropiar a sentimentalidade do 'co-co-ração'. Nesse
sentido, a voz de Noel é modernista.
Por isso, os
ritmos que desorganiza para criar o efeito da gagueira podem ser
considerados como um experimento de crítica da representação. Como algo
'original', que nem os vizinhos ou papagaios conseguiriam reproduzir -
tal como disse orgulhoso o próprio Noel a um jornalista.
Seriam, dessa
forma, frestas de criação musical. E assim como a crítica da retórica
vazia e a defesa da linguagem cotidiana prenunciam a bossa nova, esses
ritmos tortos de gago, prenunciam essa incrível mania transformada em
excelência e arte por João Gilberto, de imaginar que qualquer coisa pode
ser tempo forte.
* Esta
crônica contou com a leitura prévia e comentários de Tuzé de Abreu, que
sempre pensou a música popular brasileira a partir da seguinte trilogia:
Noel / Caymmi / Gonzaga.
** Sendo a figura do tirano seu contraponto necessário.
*** Vale lembrar que o compositor checo Bedrich Smetana, coloca no palco
um personagem gago, na famosa 'The Bartered Bride'. Essa ópera foi muito
badalada pelo mundo afora, inclusive no Rio de Janeiro.
**** Lembro aqui de Mariana, nascida no interior da Bahia (Itiuba) e uma
grande amiga da minha família. Ela usava essa expressão para fazer
referência à ameaça feita por alguma mulher de capar um macho. Eis aí o
pano de fundo da palavra 'estrago'.
***** Também aparentadas com as cadências da forma Concerto.
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