
O INSTANTE QUE
PERMANECE
A crônica brasileira é um gênero multifacetado e,
embora sem o mesmo vigor do século 20, mantém seu espaço nas páginas dos
jornais e revistas.
A crônica é um gênero paradoxal. Experimente
defini-la, com razões muito bem fundamentadas, que logo ela
tortuosamente apresentará uma outra face que o surpreenderá – isto é, se
você conseguir flagrá-la além dos estereótipos que lhe foram impostos.
Como arte da desconversa, como bem definiu Davi Arrigucci, diz muito
como quem não está dizendo nada; como gênero "menor", contribuiu para
descartar, de forma irreversível, antes dos modernistas, a linguagem
empolada que vigorava na imprensa e na literatura do século 19, operando
uma re-significação de códigos sociais até então inédita numa sociedade
extremamente estratificada; como forma
despretensiosa de expressão, sem intenções de durar, "filha do jornal e
da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa", como disse Antonio
Candido (1992), gerou muitas dentre as mais memoráveis páginas da prosa
brasileira nos últimos cem anos.
Não é curioso, por exemplo, que em sua "fusão admirável do
útil e do fútil", conforme a conhecida definição do folhetim feita por
Machado de Assis, tenha dado, pela primeira vez em nossa história, voz
aos excluídos; despertado leitores para a manipulação social; ampliado
os significados dos fatos sociais para o leitor comum? Não é curioso que
na sua condição de "um triste escriba das coisas miúdas", entregue "a
uma metafísica de quinquilharias", o autor de
Relíquias
de casa velha, e tantos outros cronistas que o
sucederam, tenham, por meio de uma linguagem facilmente compreensível,
operado “milagres de simplificação e naturalidade", como diz Antonio
Candido? Não é curioso que os livros publicados em vida por um escritor
do quilate de Rubem Braga continuem sendo reeditados ― somando-se a eles
outros títulos com seleções de suas crônicas feitas após a sua morte ―
enquanto tantos outros escritores (poetas, contistas, romancistas),
pretensamente profundos e festejados pela crítica de seu tempo, tenham
caído no ostracismo? Sem pretender ser Literatura (com "L" maiúsculo), e
a despeito de já se ir distanciando, mais e mais, a “era de outro” da
crônica brasileira, dos anos 50/60, ela certamente permanecerá, com seu
jeito camaleônico, muito depois dos que a decretam "morta" terem
desaparecido sem deixar vestígios da sua insensatez. Da crônica, pode-se
continuar enumerando características, todas válidas, mas que logo são
(auto)negadas – e não como meras exceções. Quem, por exemplo, lhe
identifica as qualidades de "simpática" e "digestiva", não conheceu o
estilo virulento do mineiro Antonio Torres (não confundir com o homônimo
baiano), muito popular no início do século 20 e que sempre esteve a
anos-luz de qualquer forma de benevolência. Até mesmo o lirismo
melancólico de Rubem Braga é apenas uma faceta de sua obra numerosa e
multifacetada: o velho urso foi combativo e mordaz em suas diatribes
contra o nazismo e o Estado Novo; isto mostram muitas de suas crônicas
não publicadas em livro, que compõem o arquivo da Fundação Casa de Rui
Barbosa, e as que foram escritas no período em que viveu no Rio Grande
do Sul, reunidas por Carlos Reverbel no livro
Uma fada
no front (Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1994).
Efemeridade x perenidade
Esta visão real, mas parcial, da crônica, como um
texto leve voltado para o entretenimento se deve talvez ao fato de que
apenas as crônicas menos coladas aos fatos do cotidiano tenham sido
reunidas em livro e ganho maior perenidade. Ou o contrário: por terem
maior perenidade, terem sido reunidas em livro. É importante perceber,
portanto, que o gênero inclui textos contundentes, às vezes ácidos em
suas denúncias de nossas mazelas sociais. Muitos deles compõem os dois
primeiros livros de Rubem Braga ―
O conde e
o passarinho e
O morro do
isolamento. Mas, consciente ou inconscientemente,
logo os cronistas (referimo-nos aos grandes, se é que esta palavra cabe
aos que dedicam toda a vida ao tom menor da conversa de pé-de-ouvido)
perceberam que os seus textos detêm um valor especial e raro nesses
tempos de escriturários ferozes: o da humanização das nossas
páginas, em livros ou periódicos. Muito mais do que apenas um gênero
"palatável" em descompasso, hoje, com um tempo supostamente mais trágico
(mas houve um período mais trágico na história da humanidade do que a
primeira metade do século 20, quando ocorreram as duas guerras mundiais,
uma delas, inclusive, coberta por Rubem Braga para o Diário Carioca?),
a crônica brasileira tem sido uma trincheira contra a mercantilização da
nossa cultura e dos seres, reduzidos a meros objetos. Nesse sentido, o
cronista é como um homem solitário, talvez um Quixote que combate, não
moinhos de vento, mas a reificação da natureza e dos seres.
Lúcidos, em suas condições de
escritores-jornalistas, os cronistas
levaram para as páginas dos jornais o tom informal, às vezes
confessional, da conversa de pé-de-ouvido, temperado pela ironia e pelo
humor.
Mas, quais são as características da crônica? Em
primeiro lugar, deve-se ter em mente que se trata não somente de um
gênero híbrido, localizado na fronteira da literatura e do jornalismo,
já que é publicada originalmente nas páginas de jornais e revistas, mas
também múltiplo, que, como assinala Massaud Moisés (1995), "[...] pode
assumir a forma de alegoria, necrológio, entrevista, invectiva, apelo,
resenha, confissão, monólogo, diálogo, em torno de personagens reais
e/ou imaginárias etc.".
Um gênero que, na sua longa trajetória – desde que
era usado para designar um relato de acontecimentos em ordem
cronológica, num sentido meramente historiográfico, mas sem
aprofundar-lhes as causas ou dar-lhes qualquer interpretação, até o
perfil que se consolidou no Brasil, no século 20 –, deu um passo
decisivo do registro histórico para o literário
quando passou a valorizar mais as qualidades de estilo.
Característica, aliás, que parece ter extraído do ensaio, conforme a
noção original deste gênero, cunhada por Montaigne, no século 16. Essas
mesmas características foram herdadas, nas literaturas de língua
inglesa, pelo sketch ― "ensaio pessoal, informal, familiar",
conforme definição de Massaud Moisés e José Paulo Paes.
A crônica tem como elemento preponderante do
gênero a adesão ao real. Isto é, àquele conceito de realidade cotidiana
com o qual o leitor se depara diariamente e que se enquadra
perfeitamente na definição de E. M. Forster, de um retrato da "vida
através do tempo". É quase certo que, ao abrir ao acaso qualquer livro
do elenco de cronistas modernos no Brasil, o leitor se depare com esses
elementos do cotidiano, ditos prosaicos. Um realismo no qual a vida
cotidiana, com seus personagens, reais ou fictícios, é retratada no que
tem de mais próximo ao dia-a-dia do homem comum.
Ligada ao jornalismo, a crônica está presa, quase sempre,
ao circunstancial. Nela, o autor pode carregar o leitor para suas
microaventuras diárias, cujas fronteiras com a ficção são muitas vezes
nebulosas, como nas crônicas/contos de Fernando Sabino. Ou, como Raquel
de Queiroz, desvelar um mundo vasto de episódios, costumes e anedotas do
sertão nordestino – e seu flagrante contraste com o mundo cosmopolita.
Mas, de um modo ou de outro, lá estão, o homem e o meio, perfeitamente
discerníveis em suas peculiaridades, em suas particularidades.
Agregação ou segregação
A crônica poderia estar ligada, para usar uma
expressão de Antonio Candido, a uma "arte de agregação", inspirada
"principalmente na experiência coletiva" e que "visa a meios
comunicativos acessíveis", procurando, "neste sentido, incorporar-se a
um sistema simbólico vigente, utilizando o que já está estabelecido como
forma de expressão de determinada sociedade". A ela se oporia uma "arte
de segregação", que "se preocupa em renovar o sistema simbólico, criar
novos recursos expressivos e, para isto, dirige-se a um número ao menos
inicialmente reduzido de receptores, que se destacam, enquanto tais, da
sociedade".
Daí se vê porque, numa perspectiva crítica em que,
sobretudo a partir dos movimentos de vanguarda do início do século 20,
privilegia-se a linguagem polissêmica, a crônica passa a ser considerada
um gênero menor. O próprio Candido, no entanto, objeta que a
agregação e a segregação "são aspectos constantes de toda
obra", e que a distinção pode ser válida observando-se a predominância
de um ou outro tipo, no "jogo dialético entre a expressão grupal e as
características individuais do artista".
Tal definição, mesmo com todas as ressalvas, se
aplicada à crônica, não daria conta da complexidade do gênero. Na obra
de muitos importantes cronistas contemporâneos, a exemplo de Rubem Braga
e José Carlos Oliveira, encontram-se exemplos em que o mundo real
aparece transfigurado pela subjetividade – marcada, como disse Candido,
pela "relação arbitrária e deformante que o trabalho artístico
estabelece com a realidade." É quando, embora sem abdicar de sua
transparência e limpidez, o "quinhão da fantasia" se sobrepõe ao
prosaico.
Tal prevalência é a marca principal da crônica
lírica – e é nela que o gênero alcança, talvez, sua culminância. É
quando a noção de realismo, em vez de ser descartada, ganha novos
significados e se enriquece. Isso ocorre na obra de diversos cronistas
contemporâneos, como Paulo Mendes Campos, como o citado José Carlos
Oliveira, ou o baiano Ruy Espinheira Filho de
Sob o
último sol de fevereiro – mas é no capixaba Rubem
Braga que a poiese e a
mimese fazem uma aliança
singular no sentido de mostrar a realidade que transparece, num
determinado tempo e lugar, por trás de suas máscaras.
Máscaras da objetividade
Pode-se observar, portanto, que a abordagem de
elementos "comuns" do cotidiano de uma grande cidade – uma das marcas
principais da crônica brasileira desde o final do século 19 – não
obedece, apesar de sua vinculação ao jornalismo, a uma abordagem
meramente referencial. Na crônica, ao contrário da reportagem factual,
sua vizinha na coluna ao lado, a realidade chega ao leitor transfigurada
pelo olhar do cronista, que, por meio do uso de metáforas e metonímias,
muitas vezes negadas aos jornalistas do nosso tempo, procura romper os
limites de uma referencialidade meramente circunstancial, para sondar,
como poeta, o cerne da realidade multifacetada da cidade desumanizada.
Assim, ao falar, na primeira crônica, que abre seu
primeiro livro, do pobre menino que nasceu
—
Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele
batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem
na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse
à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão
do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança [...] (BRAGA,
1961, p. 11)
A crônica mostra o menino que sofre por ter o
coração fora do peito; certo Dr. Mereje, voz autorizada do
médico-cientista, que diagnostica o "mal", no contexto prosaico das
ocorrências médicas, e o cronista/poeta, que,
diante da realidade crua, da qual toma conhecimento por meio de uma
notícia de jornal, busca um sentido, faz uma releitura, opera uma
re-significação que re-humaniza o real. Ou, para ser mais preciso, o
olhar sobre o real, que, entretanto, permanece enigmático, como a
esfinge do Édipo. Mas sem nunca ser decifrado.
A própria moldura do drama – a cidade – é descrita
de uma forma que a expressividade se impõe sobre a referencialidade, e
tudo se casa no fim último de revelar o sentido, oculto, sob a aparência
dos fatos, do mundo como se apresenta aos sentidos. Diz ele:
Madrugada paulista. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite
inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em
todos os postes. Os sinais da esquina - vermelhos, amarelos, verdes -
verdes, amarelos, vermelhos - borram o ar de amarelo, de verde, de
vermelho. Olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado
por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores
que ninguém nunca jamais contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo.
Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos,
tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal
sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá
longe. Passam homens de cara lavada, pobres, com embrulhos de jornais
debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras
madrugadas. Nasceu em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um
menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto
fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração
fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada.
(BRAGA, 1961, p. 10)
É, portanto, ao tirar a máscara da objetividade
que o cronista consegue expressar, da forma mais eficaz, a realidade das
coisas – realidade que não se esgota na descrição física de objetos e
cenas, nem na ilusória pretensão de mostrar a vida "como ela é". Neste
ponto, precisamente, devemos colocar em cheque a idéia de que o cronista
se coloca diante da realidade e a comenta, quase sempre com um tom
benevolente. O cronista moderno, tomando aqui como exemplo o velho
Braga, traz no bojo de seu tom "ameno" de conversa de pé-de-ouvido uma
experiência vital e uma consciência crítica.
Assim, quando diz que "há uma esperança de bonde
em todos os postes", que há "lá embaixo umas pobres árvores que ninguém
nunca jamais contemplou" e que "o olho vermelho do sinal sonolento,
tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz", Braga está
identificando uma ausência que só pode ser superada por um olhar que se
acende, como diria Exupéry, em
Terra dos
homens (um dos livros preferidos de Braga, que o
traduziu para o português), como
luzes perdidas na planície, marcando, "no oceano da escuridão, o
milagre de uma consciência".
O olhar lírico do cronista é mais eficaz, no
desvelamento de "realidades" obscurecidas, quando se associa com a
ironia – uma ironia fina que varre da complexa trama de discursos
dominantes suas falsas verdades, e meias-verdades, possibilitando-nos
divisar, por trás das máscaras, a realidade, ou uma realidade cuja
transparência chega a nos surpreender. Desse ponto de vista, a escrita
do cronista não se limita ao registro do real, e sim uma modificação da
forma como o percebemos.
A crônica brasileira contemporânea é, portanto, um
gênero multifacetado, que vai da prosa poética de um Paulo Mendes Campos
até o comentário direto de questões políticas e comportamentais da
atualidade, como a exerce, por exemplo, João Ubaldo Ribeiro.
Trata-se de um gênero complexo em sua aparente
simplicidade – perfeito, portanto, para uma determinada forma de
sondagem do real que em nossos autores alcança momentos de alto requinte
na exploração das possibilidades criativas do nosso idioma. Em termos de
suas possibilidades expressivas, uma boa crônica vale tanto quanto um
bom texto em qualquer outro gênero. E, para finalizar, podemos dizer
como Clarice Lispector: "Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o
mistério".
REFERÊNCIAS
ARRIGUCCI JR., Davi. Enigma
e comentário:
ensaios
sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das
Letras, 1987.
BRAGA, Rubem. O conde e o passarinho e morro do isolamento.
Rio de Janeiro: Sabiá, 1961.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade:
estudos de
teoria e história literária. 3. ed. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1973.
______. A vida ao rés-do-chão.
In: A crônica:
o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. São
Paulo: Editora da Unicamp / Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992.
COSTA, Cristiane. Pena de aluguel:
escritores jornalistas no Brasil 1904 - 2004.
São Paulo, Companhia das Letras, 2005.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos
literários. 7. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.
_____ ; PAES, José Paulo. Pequeno dicionário de literatura
brasileira. 2. ed. Ver. e ampl. São Paulo: Cultrix, 1980.
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