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RIQUEZA SOB ESCOMBROS
Na passagem dos 90 anos da revolução bolchevique,
ocorrida em outubro de 1917, é oportuno lembrar o impacto que esse
evento viria a ter, nos setenta anos seguintes, sobre a cultura da
Rússia e de todos os demais países que viriam a formar a União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas. Lembrar, com assombro, não apenas a
devastação verificada sobre inumeráveis obras que não se adequaram ao
modelo oficial, do Realismo Socialista, imposto a partir dos anos 30,
como a capacidade delas sobreviverem a todas as tentativas de
suprimi-las.
Ocultada e desconhecida do Ocidente durante grande parte do século
20, a riqueza cultural e artística da extinta URSS só viria à luz, a
partir de meados dos anos 80, após a Glasnost (transparência)
promovida no governo de Mikhail Gorbatchev. No Brasil, o processo desse
estado em que tudo é anunciado, em que nada pode ser escondido,
foi registrado, detalhadamente, no livro Os escombros e o mito:
a cultura e o fim da União Soviética (Companhia das Letras,
2005), de Boris Schnaiderman, que merece ser revisitado.
Schnaiderman coloca em xeque, nesse livro, uma idéia há muito
estabelecida: a de que a literatura russa, no século 19, é
incomparavelmente mais rica do que a que foi produzida, no século 20,
após a revolução bolchevique. Ao se lançar à exaustiva tarefa de contar
"uma história que não foi totalmente narrada", ele mostra como, apesar
de não ter surgido, desde a revolução de 1917, nenhum nome da estatura
de um Tolstói ou de um Dostoiévski, não há como negar o vigor
extraordinário de escritores e artistas cujas obras, apesar das mais
severas restrições, subsistiram e vieram à luz.
Nas 306 páginas de Os escombros e o mito, o leitor
vê renascer, através de arquivos do KGB e da burocracia russa, uma
infindável seqüência de obras e nomes de poetas, romancistas, contistas,
dramaturgos, filósofos, historiadores, cineastas, teólogos, artistas
plásticos e fotógrafos, cujas vidas foram aniquiladas, seja pela morte
física (na prisão, no degredo, nas execuções sumárias), seja na "morte
civil", quando "um artista criador era eliminado da vida cultural, suas
obras cessavam de circular, seu nome desaparecia de dicionários
biográficos e enciclopédias, tornava-se perigoso proferi-lo".
Primeiros sinais
Inicialmente cético em relação à Glasnost, Schnaiderman
percebeu, por volta de 1987-88, em viagens à URSS e à Alemanha, que
estava se criando uma nova atmosfera naquele país. E que "o colosso,
aparentemente imobilizado, estava de fato se mexendo". A Glasnost,
diz ele, "foi acompanhada de um abrir de gavetas que trouxe à luz
numerosos materiais, e estes obrigam a uma revisão de todas as nossas
noções sobre a cultura russa a partir de 1917".
E prossegue:
Muitas obras importantes se perderam, pois, quando se abriram os
arquivos do KGB, verificou-se que muitos manuscritos confiscados com a
prisão de seus autores parecem ter sido simplesmente eliminados. (...)
Além disso, nas reminiscências dos contemporâneos, surge com freqüência
a lembrança da queima de papéis pelos que estavam aguardando na prisão.
Mas, assim mesmo, parece prodigioso que tenha sobrado tanta coisa. Muita
gente arriscou a vida guardando escritos dos que eram perseguidos, e
deste modo podemos dispor de materiais de cuja existência nem
suspeitávamos.
Grande parte do trabalho de apresentação desses arquivos foi
realizada por jornais e revistas de tendência "liberal", a exemplo da
Ogoniók e da Litieratúrnaia Gazeta. Mas também pelo
rádio, a televisão e até por folhetos xerocados e distribuídos na rua. A
imprensa tornou-se, de repente, veículo de recuperação da memória
cultural com "lances verdadeiramente patéticos", como diz Schnaiderman,
referindo-se a uma longa carta do jornalista Boris Iefimov, na qual este
aborda a revisão do processo e sucessiva reabilitação de N. I. Bukhárin,
A. I. Rikov e outros condenados em 1938 do "bloco anti-soviético
trotskista de direita".
Diz Iefimov:
(...) Minha geração conhece e lembra bem os pecados voluntários
e involuntários. Eu apresento aqui, pessoalmente, aos próximos de
Nicolai Ivânovitch Bukhárin os meus pêsames mais sinceros e profundos.
Como eu não entenderia o seu sofrimento? Não carreguei eu acaso, por
muitos anos, o estigma de "irmão de um inimigo do povo"?
Eu sei: o que acabo de escrever será interpretado por diferentes
pessoas de diferentes maneiras. Uns vão compreender, outros vão
recebê-lo de ânimo sombrio ou com maldade. Mas, qualquer que seja a
leitura que se faça, penso que o mais importante, apesar de tudo, está
em que foi restabelecida finalmente a justiça, que triunfou a verdade e
que a todos os caluniados e supliciados foi devolvido um nome honesto.
Sim, isto provavelmente é o mais importante.
Grande parte das prisões e mortes de intelectuais na URSS se deu nos
anos seguintes a 1934, quando ocorreu o I Congresso dos Escritores
Soviéticos e se colocou o Realismo Socialista como modelo na literatura
e nas artes, propugnando um positivismo heróico e triunfalista, perante
o qual toda forma de expressão que não se enquadrasse nele, a exemplo do
experimentalismo e das vanguardas, era colocada imediatamente sob
suspeita e duramente reprimida.
"Em agosto de 1946", diz Schnaiderman, "as revistas de Leningrado
Zviezdá (A Estrela) e Leningrad foram censuradas
publicamente pelo Comitê Central do Partido, divulgando-se ao mesmo
tempo um informe de A. Jdanov que se tornaria famoso, no qual há
formulações brutais contra toda obra de arte que se afastasse das normas
de um otimismo patrioteiro e simplificador".
E prossegue, mais adiante:
Mas o jdanovismo não se limitou à campanha de imprensa.
Seguiram-se expurgos nas universidades e em todas as instituições
ligadas à cultura, sessões públicas de críticas aos acusados de desvios,
com a presença obrigatória destes, e, também, processos e mais
processos, que resultavam em fuzilamentos e trabalhos forçados. Foram
sendo suprimidas as pouquíssimas liberdades conseguidas graças à união
de forças contra o nazismo, e o número de presos em campos de trabalho
chegou às mesmas proporções da época dos famosos Processos de Moscou.
Prisões e mortes
São muitas as histórias trágicas de autores que não se adequaram à
estética oficial imposta pelo Partido Comunista. Nomes como os do poeta
Óssip Mandelstam (1891-1938), condenado a trabalhos forçados na Sibéria,
onde viria a morrer, por ter escrito um poema satírico em que Stálin
aparece com enormes bigodes de barata; ou do romancista e dramaturgo
Mikhail Bulgakov (1891-1940), autor de O mestre e Margarida,
cujos livros foram tirados de circulação e suas peças recusadas, ao
ponto de ter dito, em uma de suas cartas: "Tudo me foi proibido, estou
na miséria, acossado, em completa solidão". E, em outra missiva: "Nos
últimos sete anos, concluí dezessete obras de diferentes gêneros, e
todas elas se perderam. Semelhante situação é impossível, e em nossa
casa há trevas e uma completa falta de perspectiva".
Merecem capítulos especiais o ficcionista Isaac Bábel, autor de
Cavalaria vermelha, fuzilado em 1941; o diretor de
teatro V. Meyerhold, preso e morto a tiros em 1940; D. Mirsky, Daniil
Kharms, curiosíssima figura da literatura e do teatro do absurdo, que
prenuncia Beckett e Ionesco; Ana Akhmátova, Vielimir Khlébnikov, sem
falar nos nomes mais consagrados tais como o do poeta e romancista Boris
Pasternak, Prêmio Nobel de 1958, e de Maiakovski, cujo suicídio tem a
ver também com seu desencantamento em relação ao rumo tomado pelo
comunismo na Rússia. Outras personalidades, a exemplo do lingüista Roman
Jakobson e dos pintores Chagall e Kandinsky, cujas obras foram
boicotadas nas grandes galerias de arte da Rússia e só mais recentemente
vêm sendo revalorizadas, optaram por viver no Ocidente por não
encontrarem um ambiente cultural e político favorável à sua atuação
intelectual.
Vale acrescentar que a desgraça perante o partido atingia também a
família do "traidor". É o caso da mulher de Meyerhold, Zinaída Reich,
que, após sua prisão, "apareceu morta e barbaramente mutilada em seu
apartamento". Diz Schnaiderman:
Realmente pavoroso, o destino dos parentes das vítimas, que em
princípio partilhavam a "culpa" de seus familiares. Irina Ovtchínikova
conta que havia no interior estabelecimentos especiais para os filhos
menores, que eram submetidos a um tratamento desumano. Têm-se notícias
da transferência de crianças de uma cidade a outra, conduzidas sob a
guarda de cães policiais. Nas regiões ocupadas pelos alemães, estes
separavam, crianças judias e as fuzilavam, e as outras eram simplesmente
soltas em meio à população faminta.
E havia casos como do ficcionista russo Iúri Olecha, que renegariam
todas as suas idéias "contra-revolucionárias" para não cair em desgraça
perante o Partido e o Camarada Stalin. Autor de uma novela (Inveja,
1927) em que retratava, "numa prosa rica de metáforas, estranha, sutil",
"um intelectual desajustado no mundo tecnocrático e estranho dos planos
qüinqüenais", e depois de ter, no início dos anos 30, manifestado apreço
pela obra de James Joyce, Olecha se veria, anos depois, compelido a
penitenciar-se daquele "velho pecado".
Disse ele:
O artista deve dizer ao homem: "Sim, sim, sim", mas Joyce diz:
"Não, não, não". Tudo é ruim sobre a terra, diz Joyce. E, por isso, toda
a sua genialidade me é desnecessária [...] Vou citar um trecho de Joyce.
Este escritor afirmou: "O queijo é o cadáver do leite". Vejam,
camaradas, como é terrível. O escritor ocidental viu a morte do leite.
Ele disse que o leite poderia estar morto. É boa esta formulação? Sim, é
boa. Isto foi dito corretamente, mas nós não queremos esta correção. Nós
queremos [...] a verdade artística dialética. E segundo esta verdade, o
leite nunca pode ser um cadáver, ele escorre do peito materno para a
boca da criança, e por isso é imortal.
E, para se entender bem a utilização do adjetivo "kafkiano" para
definir o que se passava naqueles anos, veja-se o seguinte diálogo entre
os poetas Maiakovski e Nicolai Assiéiev, contado por este último, em 15
de novembro de 1939:
[...] estávamos caminhando pela Pietrovka em 1927, quando
Maiakovski de repente me disse: "Kólia, e que tal se, de repente, o
Comitê Central baixar a seguinte ordem: escreva-se em versos iâmbicos?".
Eu lhe disse: "Volóditchka, que fantasia absurda! O Comitê central vai
decretar a forma do verso?".
"Mas imagine que você de repente..."
"Não consigo imaginar isso."
"Ora, será que te falta imaginação? Então, imagine o
inconcebível".
"Bem, não sei. Eu certamente não saberia, seria o meu fim".
Calamo-nos e continuamos a caminhar. Não dei importância a isso,
achei que era uma fantasia louca. Percorremos uns quarenta passos. Ele
agitava a bengala, fumava e de repente disse: "Pois eu vou escrever em
verso iâmbico".
Este diálogo, diz Boris Schnaiderman, "lança uma luz terrível sobre
aqueles anos". Maiakovski estava, evidentemente, bem cônscio da ameaça
que pesava sobre a arte e a poesia modernas. Ele escreveria em 1928:
A república das artes
está em perigo mortal;
perigam a cor,
a palavra,
o som.
Não por acaso, a frase de uma antiga canção patriótica, que dizia:
"Nascemos para tornar o fantástico realidade", seria modificada para
"Nascemos para tornar Kafka realidade". Isto num país em que foi editado
até um Guia para a eliminação das bibliotecas que atendem ao leitor
de massa de obras antiliterárias e contrárias à revolução,
publicado por N. Spierânski e Nadiedja Krúpskaia, a mulher de Lênin. E
que incluía, em sua lista, obras de autores como Platão, Kant,
Schopenhauer, Taine, Nietzsche e Tolstoi, além de todas as obras da rica
teologia russa e até de um clássico sobre a própria Revolução de
Outubro, a reportagem Os dez dias que abalaram o mundo,
de John Reed.
Na conclusão de Os escombros e o mito, Boris
Schnaiderman declara seu espanto quanto aos extremos do sublime e do
repulsivo aos quais o povo russo passava com tanta rapidez. E referia-se
a um episódio relatado por Iúri Borev, autor do livro Breve
história do stalinismo. Em lendas e anedotas.
Durante a coletivização forçada, as camponesas enviadas para a
Sibéria muitas vezes levavam seus bebês para o soviete local, pois
compreendiam que eles não poderiam sobreviver à penosa viagem e
esperavam que os conterrâneos se encarregassem deles. Mas os
conterrâneos não se atreviam a nada, sem uma ordem superior. Consultadas
as "autoridades competentes", estas concluíram que, em primeiro lugar,
os bebês pertenciam a uma classe hostil e, em segundo, era preciso
cortar pela raiz a prática dos kulaques de deixar para o Estado ou para
os camponeses pobres a tarefa de alimentar os seus filhos. Em
conseqüência disso, os sovietes locais encaminhavam os pequenos para um
soviete mais central, onde eles ficavam no chão, berrando enquanto
podiam. E aos poucos os gritos iam rareando, até cessar por completo.
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