
RITA OLIVIERI-GODET: premiada por ensaio sobre João Ubaldo Ribeiro
A ensaísta baiana Rita Olivieri-Godet recebeu
recentemente o importante Prêmio de Ensaio 2010, da União Brasileira de
Escritores, pelo seu livro Construções identitárias na obra de
João Ubaldo Ribeiro (São Paulo: HUCITEC; Rio de Janeiro: ABL;
Feira de Santana: UEFS Editora, 2009), fato que é muito auspicioso para
a literatura baiana.

No livro, a ensaísta debruça-se sobre a ficção
ubaldiana para analisar a questão da identidade. A configuração
identitária dos povos nunca foi um processo claro e pacífico. A história
tem mostrado como as diferenças provocam conflitos, levam à intolerância
e à discriminação. Em face disso, a literatura muitas vezes se torna uma
forma de representação crítica, mostrando a crueza e o absurdo de
realidades que precisam ser compreendidas e superadas. A obra de João
Ubaldo Ribeiro mostra-se atenta a essas questões, ao abordar diversos
aspectos da formação social do povo brasileiro.
O livro de Olivieri-Godet debruça-se sobre as
construções identitárias do autor de O albatroz azul, para
examinar uma das facetas mais significativas de sua obra. A ensaísta,
que leciona na Universidade de Rennes 2, na França, já publicou diversos
artigos sobre as representações literárias das relações culturais
contemporâneas. No novo ensaio, ela analisa Viva o povo brasileiro,
Vila Real, o Feitiço da ilha do pavão, A casa dos
budas ditosos, as crônicas do livro Um brasileiro em Berlim,
além de contos do livro Já podeis da pátria filhos.
Godet aborda os textos ficcionais a partir de uma conceituação teórica
específica, citando autores brasileiros e franceses, como Antonio
Candido, Silviano Santiago, Zilá Bernd, Francis Utéza, Georges Bataille,
Gérard Genette, Gilles Deleuze, e os caribenhos Patrick Chamoiseau,
Édouard Glissant, entre outros.
Nos quatro capítulos do livro, a autora estabelece
conexões entre as obras de Ubaldo e as questões identitárias,
demonstrando suas recorrências, seus significados e sua abrangência. Com
isso, insere a literatura brasileira na problemática das identidades,
como ponto de partida para situar o lugar ocupado por João Ubaldo nesse
universo temático. Seu estudo aponta o percurso do ficcionista, desde a
tendência carnavalizante de Vencecavalo e o outro povo (1974),
passando pelo neo-realismo de Vila Real (1979), até chegar a
uma ficção que “faz coexistir uma visão épica e dramática com a
perspectiva carnavalesca, que, cada vez mais, terá tendência a se impor
em sua obra” (p. 28).
Em suas análises, Godet anuncia que, em João
Ubaldo Ribeiro, “a problemática da identidade nacional afasta-se da
homogeneização dos traços culturais, privilegiando uma representação
plural da identidade brasileira” (p. 28). Para demonstrar seu ponto de
vista, ela coteja os textos ficcionais com o aparato teórico,
privilegiando a articulação entre as estratégias narrativas e as
figurações identitárias operadas pelo escritor.
O ensaio correlaciona memória, história e ficção,
e aproxima identidade, território e utopia, mostrando marcas da voz
autoral, intertextualidades, técnica e estratégias narrativas. Segundo a
autora, Ubaldo implode estereótipos, instaura a pluralidade de vozes,
revelando a face obscura e conflituosa da formação identitária
brasileira.
Godet mostra como os textos de João Ubaldo
refletem sobre os dilemas de nossa época, ainda marcada por reações de
intolerância diante de certas manifestações da diversidade cultural e
identitária. Dessa forma, considera que sua ficção contribui para que
entendamos melhor a sociedade em que vivemos, identificando seus
conflitos e suas possíveis soluções.
Leia mais sobre Rita Olivieri-Godet no Blog da Academia.
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