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Sim Senhora
Olhou para dentro do quarto, durante alguns segundos. Depois foi
até lá fora, abriu o portão de ferro e retornou.
Deitou na mesma cama ao lado do morto, ficou até o amanhecer. Mas
não dormiu, permaneceu olhando o telhado, como estava acostumada a ficar
todas as noites, enquanto ele roncava a seu lado. Tinha sido sempre
assim, havia longos anos. Ele roncava, cheirando a pinga, a barba
emaranhada rescendendo a charuto barato, enquanto ela velava, de olhos
para o teto. Velava a própria solidão, tomando conta dela como se fosse
uma filha. E era uma filha daquela união, a solidão alimentada com a
amargura silenciosa dos dias e com a sacrificada secura das noites.
Pois, ali estava ela, velando a mesma solidão, ao lado dele. Só
que, daquela vez, ele não roncava, não podia mais. Nem podia mais
atravessar o braço por cima do seu tronco, com o poder e a força do
domínio, para se esparramar com o que restava das noitadas entre as
quengas do cabaré de Diodete.
A madrugada não tardou. Ela a viu chegar convidando-a pelas
frestas do telhado, em pequenos pontos que se infiltravam. Depois, o
galo do quintal acordou o silêncio com o ruído abafado das asas, e
cantou três vezes, e os outros galos responderam, lá
nos quintais da vizinhança. E antes que o bem-te-vi "bem a
visse", no beiral da casa, como todas as manhãs, levantou-se e não olhou
mais para o que restava dele.
Da janela da cozinha, chamou o negro.
-
Altino! Tá dormindo, Altino?
- Senhora!
- Vem cá.
- Senhora?
- Tem um homem morto em minha cama.
- Tem?
- Tá vendo o portão aberto?
- Tô sim senhora
- Foi por ali que o assassino fugiu. Você viu quando ele fugiu,
não viu, Altino?
- Sim, senhora!
- Leve o finado nas
costas antes que o dia clareie, e dê sumiço.
- Sim, senhora.
- Enrole bem enrolado em duas esteiras, e dê sumiço.
O negro não saiu de perto dela.
- Que foi, Altino?
- Né mió butá dento de um porrão?
- Tá bem. Bote dentro de um porrão e tampe a boca bem tampada
- Sim, senhora.
- O maior porrão que encontrar na olaria da fazenda.
- Sim, senhora.
O negro saiu. Voltou carregando um porrão enorme. Era um negro
pequeno e largo. Tinha as pernas entroncadas como toros de coqueiro. Os
pés cascudos, de calcanhar rachado, as mãos grandes, onde dedos grossos
e nodosos pareciam feitos de barro cozido. Ela não entendeu como ele
agüentava o peso daquele porrão, quase maior que ele.
Entrou no quarto, demorou-se.
- Anda com isso Altino, antes que o dia clareie.
- Sim senhora.
Saiu logo depois. Equilibrava o porrão
sobre as espáduas, o pescoço grosso encurvado, como costumava
carregar os caçuás de manga-rosa. Parou na porta da cozinha, antes de
sair.
- Senhora?
- Que é. Altino?
- Né bom levá os pano da cama? Tá tudo lá daquele memo jeito
- Pode deixar que eu cuido.
- Sim senhora.
O negro saiu. Atravessou o portão de ferro que ela deixara
aberto. Depois desceu os degraus, venceu a área frente à casa, até
alcançar a porteira da
fazenda que abriu sem dificuldade, e se foi com o porrão sustentado em
cima das espáduas. Os braços curtos, estufados de músculos, sustentando
o peso pelas laterais. O dia nem tinha clareado de todo.
A mulher voltou para o quarto e apanhou os panos amarfanhados que
estavam na cama. Exalavam cheiro acre de suor e aguardente. Fez uma
grande trouxa. Em seguida saiu a caminho do quintal e se embrenhou entre
as árvores e os arbustos que se cruzavam na farta vegetação.
Pegou a enxada que estava encostada ao cajueiro e começou a
escavar um fosso. Com esforço, a enxada feria a terra preta umedecida de
orvalho, e voltava carregada, como se a terra vomitasse a sua própria
substância.
Abriu a trouxa e, na cova, sepultou um a um, os lençóis que
trouxera. Olhou-os longamente. Era como se deles viesse ainda o cheiro
ardiloso do suor do homem e do seu próprio suor. A morrinha das
secreções do macho bruto e infiel. Sensação de náusea. Nojo misturado a
rancor.
Então, voltou-se. No quartinho próximo havia
querosene e fósforos.
Os olhos da mulher tinham um brilho de volúpia enquanto esvaziava
a garrafa de querosene em cima dos panos, jogando sobre eles o fósforo
aceso. O fogaréu subiu de dentro do buraco. A fumaça cheirava a cio e a
carne sangrenta. Cheirava a
cuspo e a sangue e a dor. E subia cinzenta, espalhando-se por entre os
galhos dos cajueiros e tisnando
os jenipapeiros nas suas folhas largas.
Quando o fogo acabou,
retomou a enxada e devolveu toda a terra para cima das cinzas,
até encher a cova. Voltou depois para dentro da casa, com passos lentos
e seguros. Suava nas faces afogueadas, passando as mãos repetidamente
para enxugá-las, pois o sol já queimava a manhã clara.
A cozinheira coava o café e amassava o cuscuz de farinha de
milho.
- Josina!
- Senhora?
-
Desarme a cama daquele quarto e leve as peças para fazer a fogueira do
São João dos peões da fazenda.
- Sim senhora.
- Hoje! E quando o
café estiver pronto me chame.
- Sim senhora.
Foi para a varanda e
espichou-se na rede. Com olhos vagos, demorou-se no casal de rolinhas
que bicava grãos de areia entre as pedras do chão. Graciosas, doces, um
casal.
O negro retornou.
- Senhora?
- Pode dizer, Altino.
- Já dei sumiço.
- Onde deixou?
- No rio.
- Retirou a tampa?
- Tirei sim senhora.
- Encontrou alguém?
- Não senhora.
- Então pode ir cuidar do seu serviço.
- Sim senhora.
- Meu café, Josina?
- Tá pronto, senhora.
Sentou-se à cabeceira da mesa comprida da sala. O cuscuz fumegava
brilhando de manteiga e requeijão derretido. A xícara cheirava a café
torrado na hora.
No fogão, o negro esticava o braço com a caneca de alumínio para
a cozinheira encher de café.
- Altino!
- Que é, Josina?
- Deu sumiço no quê?
- Num porrão grande.
- Tinha o que dento?
- Uma pução de mulambo.
- Oxente!!! Pra dizê que a patroa indoidou de onte pra hoje? E
foi pela viage do patrão... Vai vê porque ele nunca viajou, só saía pra
se fretá mais as quenga de Diodete... Mulé qui só fica com home den'de
casa, é assim... No quele viajou ela indoidou. Mais foi dipressa dimais.
Mandou queimá a cama... Já se viu?
- Rum...
- Eu nem vi conde ele saiu. Foi de cavalo?
Tu viu?
- Hum-hum...
Silêncio demorado caiu na cozinha. Só se escutava o ruído que a
colher fazia arranhando o fundo da caneca do negro que mexia o café.
- Altino?
- Qui é agora, mulé?
- Donde tu jogou o porrão grande?
Silêncio e
- Bote mais açuca no meu café..
A mulher chamou o negro.
- Altino?
- Senhora?
- Ferra duas crias gordas com tua marca.
- Sim, senhora. Qual é as cria?
- À tua escolha.
- Sim senhora.
- Tu mereces, negro fiel.
A mulher chegou ao galpão e estranhou o negro preparando o ferro.
Ao lado, meia dúzia de crias grandes bem cevadas, estavam à espera, para
serem marcadas.
- Altino?
- Senhora?
- Quantas crias te mandei ferrar com tua marca?
- Duas cria, senhora.
- Juntaste seis crias. Sabes contar, negro?
- Sei contá, sim senhora.
- E então, Altino?
- O porrão dos mulambo tava muito pesado. Os
mulambo pesava o peso de seis cria, senhora. Se a senhora quisé, trago o
porrão de vorta, com tudo o qui tá dento.
- Deixa o porrão lá mesmo, Altino. Deixa o rio levar.
- Sim senhora.
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