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Yêda Schmaltz: Cor e sabor na poesia brasileira
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Então, aqui estou: herdeira.
(Yêda Schmaltz, “Chuva de ouro”, 2000) |
Há oito anos, em 10 de maio de
2003, perdemos uma das vozes líricas mais expressivas da poesia
brasileira. Yêda Schmaltz (1941-2003) foi poeta e artista plástica de
grande destaque na vida cultural goiana, deixando uma obra consistente e
bastante premiada. Formada em Letras e Direito, foi professora do
Instituto de Artes da Universidade Federal de Goiás. Entre seus prêmios,
destacam-se o da Associação Paulista de Críticos de Arte, para melhor
livro de poesia, de 1985, com a obra Baco e Anas brasileiras; e o
Prêmio Cora Coralina (de Goiás), recebido em1996.
A poeta estreou em 1964, e
deixou publicados 21 livros, sendo 19 de poesia, um de contos e um de
ensaios sobre arte. São estes os seus títulos:
Caminhos de mim
(poesia), Goiânia, Escola Técnica Federal de Goiás, 1964;
Tempo de Semear
(poesia), Goiânia, Cerne, 1969;
Secreta ária
(poesia), Goiânia, Cultura Goiana, 1973;
Poesias e contos bacharéis II
(antologia, c/ Teles, J. Mendonça e Jorge, Miguel) Goiânia, Oriente,
1976;
O peixenauta
(poesia), 1ª edição, Goiânia, Oriente, 1975; 2ª edição, Goiânia,
Anima,
1983;
A alquimia dos nós
(poesia), Goiânia, Secretaria da Educação e Cultura, 1979;
Miserere
(contos), Rio de Janeiro, Antares,1980;
Os procedimentos da arte
(ensaio), Goiânia, UFG, 1983;
Anima mea
(seleção de poemas), Goiânia, Anima, 1984;
Baco e Anas brasileiras
(poesia), Rio de Janeiro, Achiamé, 1985;
Atalanta
(contos), Rio de Janeiro, José Olympio, 1987;
A ti Áthis
(poesia), Goiânia, Secretaria da Cultura e Prefeitura, 1988;
A forma do coração
(poesia), Goiânia, Cerne, 1990;
Poesia(antologia
poética), Oficina Literária da Funpel,(Xerox), Goiânia,1993;
Prometeu americano
(poesia), Goiânia, Kelps, l966;
Ecos
(poesia), Goiânia, Kelps, l966;
Rayon
(poesia), Goiânia, Cerne / Funpel, 1997;
Vrum
(poesia), Goiânia, Edição da autora, 1999;
Chuva de ouro
(poesia), Goiânia, Cegraf/UFG, 2000;
Urucum e alfenins – Poemas de
Goyaz, Goiânia, Cegraf/UFG,2002
De fato, Yêda Schmaltz deu uma
relevante contribuição à poesia goiana e brasileira, pela síntese de sua
obra e pelos enfoques temáticos. Sua última obra foi a antologia
Urucum e alfenins – Poemas de Goyaz, livro que se divide em 13
seções, enfeixando 70 poemas, versando sobre aspectos como cultura,
vocabulário, costumes, cidades, gente, paisagens e rios do estado
goiano, como uma reiterada declaração de amor a seu universo. A autora
trabalha bem o conteúdo, distribuindo-o organicamente nos poemas com
riqueza de detalhes, colorido, leveza e lirismo, possibilitando uma
leitura proveitosa e agradável, tanto pelos assuntos como pela forma
poética da abordagem.
A linguagem de Urucum e Alfenins é eficientemente
construída de figuras, metáforas, jogos semânticos, comparações,
alusões, neologismos, com imagens que fluem da observação lírica do
espaço natural e social de Goiás. O próprio título é muito expressivo ao
juntar, numa mistura de tradição, cor e gosto, os sentidos do urucum
(do tupi urucu, que significa “vermelho”, nome da substância
corante produzida pelo fruto do urucuzeiro) com os sentidos de
alfenim (do árabe, que significa massa de açúcar branca, em ponto
especial, delicado). Esse feixe de sentidos metaforiza-se como amálgama
cultural que se exprime na mistura dos dois componentes, no preparo do
poema como um prato especial: com sabor, gosto, cor, doçura,
consistência poética – no ponto – e prazer estético.
O livro adota como epígrafe de abertura o grito de guerra dos
índios do planalto central. Trata-se de um canto que define a terra e a
cultura pelo olhar lírico, com riqueza de detalhes plásticos e afetivos
que brotam do sentimento telúrico, comunicando uma sensação agradável de
estar e viver em terras goianas. Mas há também vários momentos de
meditação existencial, em que a consciência crítica aflora nos versos
acerca da cultura e do viver cotidiano, das vicissitudes, das
frustrações e dos anseios, o que dá uma aguda marca pessoal aos poemas.
A lira telúrica vibra o seu canto, celebrando Goiás como estado
político, com seu território, suas cidades, sua organização, e como
estado poético, com suas emanações líricas que brotam da mata, dos rios,
das serras, do viver e existir de seres humanos e animais, plasmados nos
versos da poeta sensível. Em “Os rios” a paisagem ganha voz e vida, em
versos simples, comparativos, que se harmonizam no conjunto mantendo
sempre a consistência. Personificam-se os rios, através de seus atos
naturais: Tocantins, Araguaia, Formoso como que dialogam e agem na
natureza. O eu lírico marca sua proximidade afetiva, envolvendo-se com o
corpo líquido dos rios, numa contemplação amorosa:
Meu rio,
diga, meu rio, tua palavra,
antes que a água passe.
– O amor é tudo o que nasce.
Ao se voltar para as paisagens do Planalto Central,
a poeta parte da consciência de um estado-lugar – do viver e
transitar – para percorrê-lo como estado-corpo – do contemplar e do
sentir. O olhar percorre as trilhas por onde correm as águas da poesia,
sobre montanhas, no cerrado, colhendo na paisagem as cores, os sons e os
sentidos poéticos. Em “Amar-Go”, o sentido inicial sugerido subverte-se
para nomear o amor a Goiás, por adoção e empenho volitivo pessoal.
Em “As cidades”, a poeta faz um percurso afetivo/descritivo por
localidades goianas, emprestando-lhes sua voz lírica, para que se
afirmem, em seus aspectos humanos. Através desse discurso, a poeta
projeta seu sentimento no próprio ser das cidades:
Eu sou uma cidade.
Tive templos derrubados
e depois reconstruídos
Tive crianças, tive jovens
e tive mortos e feridos.
Mais adiante, o belo e longo
poema “Goiânia – convite e roteiro”, com uma suavidade rítmica que
encanta:
vem a Goiânia em outubro
pois Goiânia é flor cidade
onde existe uma alameda
cujo nome é feito a fogo
mas de fogo não tem nada.
Para contrastar com a
exuberância cantada nos versos anteriores, o poema “Goiânia descabelada”
disseca a situação social e política da cidade, num recorte crítico
muito forte. Assim a poeta passeia por paisagens e cidades, situações e
circunstâncias, imantando-as em poemas cheios de lirismo e plasticidade,
numa viagem poética muito bem sucedida.
Em toda a extensão da obra, a linguagem mantém sua funcionalidade
artística, consubstanciando-se no investimento afetivo do eu lírico e na
apresentação dos assuntos e situações. O vocabulário é rico em aspectos
linguísticos locais, mas sem cair jamais no simples pitoresco. É do
lugar cultural goiano que efetivamente fala a poeta, mas numa
perspectiva lírica que ultrapassa o lugar. É também notável a presença
da dicção e da sensibilidade femininas no trato com o assunto, na
maneira como o sujeito do enunciado se coloca diante das situações,
revelando sua visão de mundo.
Urucuns e alfenins é
uma antologia poética que se sustenta pelo poder de concisão dos versos,
pelos efeitos semânticos e sonoros, e pelo ritmo contemporâneo, com
consistência lírica e equilíbrio estético.
Escritor, doutor em Letras (USP)
e professor da UEFS – Bahia.
Pertence ao PEN Clube do Brasil, à UBE-SP e à Academia de Letras da
Bahia.
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