Vamos ao shopping         

Paulo Costa Lima

Lá vai o zumbi de shopping
balançando suave sem direção certa
talvez tome outro café expresso
esse ano já foram 365
o fato é que prefere estar aqui dentro que lá fora

talvez seja o clima frio ou quente que aqui aconchega
ou simplesmente a sensação de movimento e cor
a ilusão de que consome logo existe?
aposentado, encontra com outras carecas para longas conversas
ou então simplesmente vagueia por certos lugares de costume
pode ser mais jovem e ter cara de estar olhando pra longe
esses corredores lisos são um lugar tranqüilo para os medicalizados
que hoje são muitos,
a depressão, uma rotina diária às vezes espanta ou refreia

e também para pessoas com poucos recursos
dá pra ficar olhando de vitrine em vitrine, circulando de ponta a ponta
e até comprar uma besteira qualquer
(desde que não tenham aparência de miséria, pois a miséria aqui é anátema)
é o terror, anula o efeito hipnótico duramente conquistado
e é preciso vigiar o tempo todo para mantê-la longe ou muito passageira

o shopping é um experimento de uma nova sociabilidade
talvez porque outra já não exista,
pelo menos para a classe média,
e nesse sentido somos todos zumbis

as mães e suas dedicadas filhas olhando sapatos e bolsas,
os meninos e meninas que correm pro cinema ou para o brinquedo mais novo
os ratos de livraria, disputando as poucas cadeiras de leitura livre
nós compradores de serviço, bugingangas, loteria, celular, sorvete...

um experimento cultural cuja premissa central é apenas uma: accountability
me explico: cada espaçozinho de prazer e ócio
cada olhadela de interesse sinceramente fingido, cada sorriso, cada muxoxo
cada delicadeza de balconista e cada ‘pois não, senhor’
precisa bater no fim do mês com precisão absoluta,
precisa ser traduzido em sustentabilidade
e tudo que vemos são ‘cases’ de sucesso, ou já estariam fechados

no caso do brasil, tem também a segurança física como ingrediente indispensável
pois se a injustiça social contaminou a sociabilidade mais ampla através do perigo constante de violência, uma redoma aparece como solução redentora;


tudo começou nas cercanias de Seattle em 1950,
com o arquiteto John Graham e sua idéia inovadora,
estava inventando o futuro e não sabia
hoje, no brasil, são cerca de 260 estabelecimentos,
mais de 40.000 lojas, 460.000 funcionários,

tudo isso apoiando-se na estratégia infalível de acionar a fantasia da compra;
antigamente os ricos ficavam em casa e mandavam seus empregados pra rua,
mas agora comprar é que é gostoso,
você compra uma aura de distinção e diminui a fome de ser algo mais,
você participa de um teatrinho social que lembra alguma coisa de filme ou novela

às vezes me pego comparando o shopping ao circo,
que parece tão digno com seu pagamento de uma entrada e depois a celebração coletiva do riso, do suspense no trapézio, do perigo das feras...

o espetáculo do shopping não pode parar, pelo menos antes das 22,
na hora do desmonte vemos os atores correndo pra fila do ônibus
uma meia de mulher se desfia aqui e ali, já não vale a pena retocar a maquiagem
todos cansados e ávidos por escapar da casa de espetáculo,
—alguém teve a luminosa idéia de colocar uma música entre animada e saudosa para o encerramento
disfarçando a performance justamente com outra, criando um clima,
envelopando esse momento delicado de final de feira...

pois é: e dizer que o ancestral do shopping é a feira!!
uma culminância de sociabilidade,
o que há de coletivo no shopping além dessa confortável solidão compartilhada?
onde fica a loja de utopia?
o que fariam os sem-teto no shopping?

será que do modelo do shopping já não nos livramos mais?
a universidade vai virar (já virou) shopping?
as igrejas e a fé?
as artes e os artífices?
a ética e os bons sentimentos? a política?
não seria a internet sua versão digital?

Zumbi, oh Zumbi dos Palmares! Transforme o shopping em quilombo, como se fosse uma grande feira de São Joaquim, pois talvez isso liberte todos esses seres deslizantes de uma vez...

— mais um café, por favor!

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