Lançamento do livro Kairós

[Lançamento do livro Kairós]
09 de Dezembro de 2020

 

LANÇAMENTO

 

Em 09 de dezembro de 2020, às 17h, ocorrerá o lançamento do livro

 

KAIRÓS

de

Vladimir Queiroz

 

Link YouTube: https://youtu.be/5up4ddXCZ2w

 

acompanhado de um debate com

 

Amosse Mucavele

Escritor e jornalista cultural

 

Maria Adelina Amorim

Escritora

 

Gerana Damulakis

Escritora -ALB

 

Aleilton Fonseca

Escritor - ALB/UEFS

 

 

 

 

TEMPO PRECISO, POESIA NECESSÁRIA – O LIRISMO DE VLADIMIR QUEIROZ

Aleilton Fonseca

 

Vladimir Queiroz exibe em sua poesia uma dicção própria, desde seus primeiros poemas publicados em livros, revistas e antologias. À primeira vista o leitor percebe que está entrando numa seara poética muito particular, e, assim, precisa familiarizar-se com o cultivo das palavras, com os canteiros das imagens, com os ramos e as flores que desabrocham verso a verso. Esse estranhamento inicial pode começar com os títulos dos livros e de alguns poemas, mas logo é recompensado pela qualidade do seu tecido lírico, o ritmo, as imagens, o vocabulário, a estrutura, o alto nível de invenção. 

Desde sua estreia, em 1996, com o livro Saberes & dizeres, o poeta vem se afirmando no cenário contemporâneo, porque sua poesia agrega experiência, pesquisa, conhecimento e experimentação, qualidades tão necessárias à lírica do nosso tempo. O poema “Meada” já nos informa sobre sua concepção do fazer poético, como um trabalho de artesão, sempre sensível e meticuloso:  

Ao pedal da roca

o fio da meada foi tecido

juntando os pedaços,

os dissabores e percalços.

 

Trata-se de um poeta que ocupa um lugar de destaque, com mais de dez livros editados, com um notável trânsito internacional, tendo participado de antologias e eventos literários estrangeiros importantes. Teve sua poesia publicada em Portugal, Colômbia, Itália e Romênia. Portanto, já se encontra traduzido para o espanhol, o italiano e o romeno. Seus livros têm títulos fortes e expressivos. Terracota (1996) foi apresentado pelo poeta cordelista Franklin Maxado. Luminescência (2008) foi prefaciado pelo poeta Foed Castro Chamma. O livro Nuances, publicado no Brasil em 2012, teve o prefácio da crítica e acadêmica Gerana Damulakis. Aliás, este é o seu livro mais internacional. Em 2015, foi publicado em Portugal, com prefácio do poeta e crítico literário Victor Oliveira Mateus. Também foi traduzido na Romênia, por Lavinia Vrajitoru, em 2015. Na Itália, teve edição em 2018, traduzido e prefaciado por Valentina Bosi. Na Colômbia, foi editado em 2019, com prefácio do poeta Julio Cesar Bustos.

Neste novo livro, o poeta Vladimir Queiroz continua a lavra de uma poesia de grande performance imagética e sugestiva. O título Kairós chama a atenção do leitor, como um convite à leitura e um desafio à decifração de suas emanações simbólicas nos poemas. Essa palavra de origem grega pode significar “momento certo, oportuno”, a hora suprema, em relação à ocorrência de um fato. Como se sabe, os gregos antigos diferenciavam duas noções de tempo. Chronos determina o tempo dos homens, percebido como sequência quantitativa e mensurável. O eu lírico confirma: “Cronos com seus passos medidos / confia a Deus o seu tempo infinito a sós, / construído num segundo de sentidos”. Noutra instância mitológica, Kairós define o tempo dos deuses, qualitativo e imensurável, átimo do acontecimento que marca e renova, como fato oportuno, certo e inusitado. Kairós amplia o sentido do ser e estar no tempo, libertando a vida das amarras de Chronos. E essa é a busca de todo poeta, o ser e estar para além das horas e das eras.

No terreno da Poética, as palavras emblemáticas da cultura mitológica e literária ocidental, uma vez apropriadas pelos poetas, acumulam e atualizam outros sentidos e novas aplicações. Kairós, aqui, pode ser intuído como o momento exato e oportuno da cintilação do poema, o instante em que se dá a crepitação criativa das palavras. Isso corresponderia à difundida ideia de epifania, ou seja, a revelação do dizer poético, ocupando o espaço do ser/existir onde antes havia o silêncio e o nada. O sentido é, portanto, alegórico, pois que sugere a concepção do poema como uma manifestação suprema, um milagre, num lapso de tempo em que se dá a revelação do discurso lírico. É o crepitar dos sentidos figurativos do mundo e da percepção da vida.  

Os poemas de Kairós são densos e instigantes.  Seus versos enfeixam campos semânticos que se desdobram em novos sentidos, com ritmo, musicalidade e, algumas vezes, em tom de prédicas. O eu lírico assume a posição de visionário, porque enxerga a vida para além dos sentidos correntes das coisas, e passa a revelar aos ouvintes/leitores as suas percepções de uma surrealidade imagística. O poeta, qual demiurgo, revela-nos algo que está além das aparências comuns que nos cercam e reduzem a nossa percepção do mundo a uma lógica menor, utilitária e denotativa. 

No percurso da leitura encontramos vários momentos de extrema beleza plástica, em que se nota o esmero do poeta artesão, cada vez mais sugestivo e filosófico em sua poética, com um existencialismo leve, sem angústia, mas em busca de saber melhor os mistérios do verbo que se torna corpo de sentidos em cada poema.

Como símbolo e marca dessa poética, podemos apontar o poema “Faúlhas”. Não à toa está dedicado a um exímio artista das formas inusitadas, “Francisco Brennand nos seus 90 anos”. Uma justa homenagem ao grande ceramista, escultor, desenhista, pintor, tapeceiro, ilustrador. Os versos do poema exprimem bem o sentido da crepitação criativa da arte poética, a converter os materiais da mera realidade em objeto artístico, como uma forja/ moinho de poesia:

 

No moinho só restam ao final faúlhas que se despregam do pão.

Esquecem a fornalha, a lenha consumida até arder em brasa

fervilhar fagulhas, renovar a chama ao entorno da fome

que se forma, criar sanidades e ensejos.

 

O poema como artesanato. O poeta como artista e artesão. Faúlha é substância fluida e fugidia que provêm de um fenômeno de natureza físico-química. Como verbo intransitivo, faulhar significa estalar como as faúlhas ou faíscas que se desprendem da madeira incendiada, ou do sal lançado ao fogo. O poeta transmuda o sentido para nomear seu trabalho com as sugestões dessa matéria orgânica e simbólica, a palavra, essa farinha de fazer o pão-poema. Ou seja, o poema é o crepitar das ideias amassadas com o pó das palavras para alimentar os desejos de transcendência estética. 

Em Kairós, os poemas se constituem de sugestões plásticas, num ritmo em que se constata um êxtase da percepção lírica de cada entorno do texto, como um desenho abstrato somente possível pelo poder da imaginação. É como se o poeta desenhasse formas com as tintas das palavras, que ele mistura e combina em sua paleta de signos. Os versos emergem do crepitar da imaginação, faulhando através dos versos, em movimento:  

 

No moinho, em meio ao palheiro que se amontoa, vão-se

perdidos os sonhos como agulhas que se desventuram

após cerzido o rasgo dos tropeços dos que foram procurar

a epifania sob o sol, criar verdades e andejos.

No moinho a água que corre pelo umbral em noite

atemporal faz sussurros e provoca medos. Despedaça

a alma para surgir do grão a farinha alva,

gemidos e segredos, criar vontades e desejos.

No moinho criaturas estranhas pelo céu voam

das tulhas e ranhuras da terra sob as mãos, cozidas.

Um palácio inteiro pelos ares moldado pelo barro amiúde.

No celeiro sobre o ataúde, criar eternidades e beijos.

 

As sugestões são precisas. Os versos são como faúlhas, termo inusual e por isso mesmo mais poético, sinônimo lírico de “fagulhas”. O termo guarda uma suavidade prosódica formidável, já que se harmoniza a pronúncia com a supressão da consoante palatal. Semanticamente, faúlha pode significar faísca que se desprende da matéria em combustão. Mas também pode significar o pó sutil que se levanta da farinha ao ser peneirada. Aqui o eu lírico percebe que as faúlhas se despregam do pão, ou seja, do poema que alimenta a imaginação e a necessidade estética. Desse torneio de figuras, podemos intuir que faúlhas são eflúvios de sentidos que se desprendem do poema, visto como forma que é dada à farinha do moinho. Moer, peneirar, assar, alimentar o desejo do belo. Fazer o poema é assar o pão, tal como os finos biscoitos dos quais nos fala um certo poeta modernista. Eis uma bela metáfora da maquinaria do fazer poético.

A poética de Vladimir Queiroz é madura, fecunda e criativa. Trata-se de uma poesia que nasce de uma imersão absorta nas vivências, nos espaços de ver e aprender, nas viagens por terras e paisagens estrangeiras, onde os olhos recolhem outros matizes das coisas e cores, de palavras e imagens. E tudo isso imantado no Kairós, ou seja, no tempo certo, e na percepção alegórica dos quatro elementos de Gaia.

Este poeta sabe o que fazer e o que escutar: “Um passarinho azul veio contar-me/ sobre as peripécias do seu voo / furtivo. / Como um mágico a tirar da cartola segredos, / traz um pouco de lá, de onde não sei, / todos os dias.”

De fato, a cada coletânea enfeixada em seus livros, encontramos um poeta consciente de sua arte, atento às diversas possibilidades das formas. O eu lírico sabe-se um artesão no jogo das imagens, seus versos ousam para além dos sentidos comuns. Assim, o poeta formata seu texto e registra sua voz pessoal e inconfundível no panorama da lírica contemporânea. Nos poemas de Kairós encontramos uma poesia densa, mas leve, com uma profusão de metáforas cujos sentidos se concentram até atingir a textura diáfana das sutilezas. Seu lirismo é vazado em sugestões semânticas inusitadas, com palavras precisas e preciosas. Eis aqui a força lírica de um poeta experiente e consumado. 

 

Aleilton Fonseca é escritor, professor da UEFS, 

membro da Academia de Letras da Bahia