Por Bruno Rosário, arquivista da Academia de Letras da Bahia
A centenária Academia de Letras da Bahia (ALB), criada em 1917, é uma das instituições culturais mais prestigiadas do Estado da Bahia. Essa marca não é apenas um mero detalhe da sua longa história. É testemunha da sua afirmação e dinamismo potencializada ao longo de décadas pelos serviços prestados à cultura, às letras, às artes e às ciências. No cenário baiano, atravessa, ininterruptamente, mais de um século de atividades sendo partícipe de fatos e acontecimentos históricos que dialogam com os diversos setores sociais, culturais e políticos da Bahia e do Brasil, a exemplo das comemorações centenárias da Independência da Bahia, descoberta do petróleo, criação de universidades federais, a interiorização da educação superior estadual, movimentos sociais, dentre outros episódios importantes e de grande apelo social, cultural e educacional. Nesse contexto de longevidade, um importante aspecto da história da Academia de Letras da Bahia determina a sua vocação para a imortalidade: o Palacete Góes Calmon.
O antigo Casarão, localizado no bairro de Nazaré, Salvador, Bahia, pertenceu a Inocêncio Marques de Araújo Góes Junior (1839-1897), advogado e político. Por ocasião do casamento do seu sobrinho e filho de criação, Francisco Marques de Góes Calmon, o Palacete foi doado ao mesmo em 1897. Mais tarde, Góes Calmon se tornaria banqueiro, advogado e governador da Bahia de 1924-1928. Ativo colecionador, amante das artes, de família tradicional, Góes Calmon conservou no Palacete o aspecto imponente dos prédios ecléticos do final do século XIX e início do século XX, construídos em centros de terreno, com jardins laterais, escadarias e demais elementos decorativos: painéis de azulejos, balaustradas, porão, fonte de água, estatuetas. O Palacete ficou sob a posse da família Góes Calmon de 1897 a 1943, quando, após o falecimento de Francisco Marques de Góes Calmon em 1932, a Casa e suas coleções foram adquiridas pelo Governo Estadual para abrigar a sede da Pinacoteca do Estado e o Museu do Estado, inaugurados em 2 de julho de 1946. Entre os anos de 1970 e 1983, o Palacete foi sede do Museu de Arte da Bahia. O acervo era basicamente composto por mobiliário antigo, azulejos, esculturas e ourivesaria.
Em 7 de março de 1983, quando a ALB completara 66 anos de fundação, o Governo do Estado fez a doação do Palacete Góes Calmon à Academia de Letras da Bahia, tornando-se sede da instituição, após longo período no prédio do Terreiro de Jesus, Pelourinho, centro histórico de Salvador. A transferência da sede do prédio do Terreiro de Jesus para o Palacete no bairro de Nazaré, permitiu que a ALB se credenciasse para ampliar suas ações, participar efetivamente das mais diversas atividades culturais, além de se firmar como agente de dinamização da cultura, tornando-se referência como um núcleo difusor da história e da memória na Bahia. Cabe destacar o protagonismo da ALB como uma das instituições culturais mais longevas e atuantes em todo o Estado. A nova sede proporcionou uma agenda portentosa de atividades, mas, sem dúvida, o destaque desta mudança efetivou a sua vocação para o cultivo da língua e da literatura nacionais, além do estímulo às letras, às ciências, às artes.